Por Júlia Novaes
O Club Noir, com um nome desses e uma peça com esse título, não deixa dúvidas que trabalha diretamente e sempre com a escuridão (e, por conseqüência, com a luz).
Para quem foi despreparado ao Sesc Pompéia, não adiantou ler as sinopses de divulgação para tentar entender a peça. Isso porque o texto de Gregory Motton já é um texto difícil e completamente entrecortado, sem linearidade de tempo. E a montagem do diretor da companhia de teatro Club Noir, Roberto Alvim, picotou ainda mais o texto deixando pouco da história do marinheiro irlandês Tom Doheny e muito da reflexão lírica do dramaturgo.
É preciso entrar no teatro com outros olhos. Ao sentar-se no galpão do Sesc a vista começa, aos poucos a se acostumar com a escuridão e logo, tudo o que a delicada luz pontua no palco salta aos olhos. O texto e a voz, principal ponto do estudo do Club Noir é trabalhado na peça de uma forma muito específica: os três atores, ao invés de dividirem entre si os personagens, transitam entre eles: às vezes, sozinho no palco, o mesmo ator faz um diálogo todo.
É como se não houvesse diferença entre diálogo e monólogo. E, como em cena, quase não há movimentação, as vozes dos atores são trabalhadas como música e, elas sim, se movimentam: do grave para o agudo, do lento para o rápido, do sólido para o airado. E é nessa brincadeira que está a beleza da peça.
Sem necessidade de entender a história racionalmente, é preciso sentir, experiênciar, ouvir. Isto porque toda a dificuldade das elipses de tempo, dos recortes da história e da multiplicidade dos personagens é facilitada pela visualidade. O cenário tem apenas dois bancos e alguns símbolos: a árvore, a maçã, a cobra e o porco. São símbolos simples, até clichês, presentes do imaginário de todos, mas utilizados de forma muito plástica que acrescenta um véu de familiaridade a aridez da peça. (mais…)
