456 anos e o primeiro texto

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Por Pedro Henrique Araújo

Pedro Henrique


O que seria melhor do que começar a escrever num site sobre a cidade no aniversário da mesma? Ok, talvez uma lasanha, uma partida ganha pelo meu time e um bom solo de bateria sejam melhores, mas não encontrei outra forma de começar este texto. Alguém aí teria mais um clichê para o segundo parágrafo?

Antes de qualquer linha sobre música -  tema que abordarei aqui – gostaria de falar sobre mim. Isso mesmo, da mesma forma que fazemos no terapeuta, mas prometo não entrar nos conflitos freudianos. Sou Pedro Henrique Araújo, repórter do site Placar, apaixonado por futebol e novo colunista de música do Culturaria. Agora você, prezado leitor, se pergunta: mas o cara não é jornalista esportivo? Assim como não somos alegres o tempo inteiro (já diria Wander Wildner), não sou futebol 24 horas por dia. Problema resolvido?

Então, vamos ao que interessa.

Aniversário da cidade de São Paulo com programação musical bem fraca. Shows de segundo escalão nos palcos principais e falta de empenho na divulgação, qual foi a saída mais fácil e arborizada? Conferir as apresentações do Auditório Ibirapuera.

No sábado fui ver a banda brasilense Móveis Coloniais de Acaju, uma das preciosidades pop nacional. Devo confessar também toda a minha parcialidade com o grupo, porque os acompanho desde os primeiros shows em São Paulo e gosto do som que fazem, mas isso não é motivo para eu deixar de afirmar categoricamente que vi um dos melhores shows do noneto de Brasília. Com energia ímpar, fizeram o registro de seu primeiro DVD, que será lançado em breve.

A composição da banda é impressionante. Além dos básicos, baixo, bateria, guitarra, teclado e vocal, aparece também um trombone de vara, um saxofone tenor, um barítono e uma flauta transversal. O som, definido por eles mesmos, é uma feijoada búlgara, mas tem azeite de dendê e muito swing.

O único problema – que pode nem ser tão grave assim – é o público que a banda vem abocanhando. A plateia está cada vez mais jovem e preocupada com os sapatos desamarrados do vocalista no lugar dos solos de sax. Um problemão para quem quer prestar atenção na execução das canções. Ok, esse comentário pode ser só birra de uma pessoa com a alma “velha” e, se quiserem, podem ignorá-lo. (mais…)

Augusta: uma companhia que vale a caminhada

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Por Alexandre Osser / Culturaria

Se existe um lugar em São Paulo que consegue expressar o sentimento que tenho pela cidade, é a rua Augusta. Cada vez que ando por lá descubro novos detalhes.

Os contrastes da rua se mostram em seus personagens rotativos: o bacana, o largado, a intocada, o intelectual, os descolados e os colados, os consumistas, as dançarinas do amor e os malabaristas do cotidiano, entre qualquer representante de outro estilo que se possa imaginar.

A cada quarteirão, os sentimentos mudam, acompanhando as novas imagens.

Resolvi, então, fazer uma caminhada por toda a Augusta, saindo do número 1 (no centro) até chegar ao número 3.000 (no jardins), sem nenhuma pretensão e do jeito que mais gosto.

O início da rua já sinaliza que o diferente está por vir: uma praça com dois andares é no mínimo inusitada. O concretão da Roosevelt causa impacto.

Início da rua Augusta.

Inicio da rua Augusta.

No número 17, o grafite desbotando contrasta com a vista do vaivém alucinante da Radial Leste. É um retrato, ao vivo, da cidade que não para.

Andando um pouco mais, no número 325, o cartaz da Cia. Corpos Nômades confirma os contrastes: o espetáculo de dança contemporânea que dialoga com as culturas do carnaval e do hip-hop está em cartaz.

Ao lado, no 331, está o Club Noir. Mas a subida continua, e como continua! Logo aparece o aviso que a minha falta de pretensão “aguardava”: na esquina do 344, grafitado na parede, “Tente ver”.

Surge um sebo (398) e o Studio SP (591), mas as casas simples, apagadas e algumas camufladas aguardam o fim do dia para tornar a região que vai do número 550 ao 900 o antro do prazer chanchado.

Vira virando, as marcas do tempo vão deixando alguns lugares de lado. O casarão do número 680 sente isso na pele, sem maquiagem e estacionado no tempo, mas com um charme que tem me chamado atenção. Ainda vou morar em um casarão em São Paulo!

Logo adiante, perto do Vegas Club (765), existe um belo espaço do grafite (do número 732 ao 748, e depois do 822 ao 848) que guarda um detalhe: só pode ser visto depois que os estabelecimentos fecham as portas, pois é lá que se encontram os desenhos. (mais…)

Interpretação Digital

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Por Júlia Novaes

Júlia Noaves

Júlia Novaes

Entre férias escolares e recessos, grande parte dos paulistas não está trabalhando entre o natal e o ano novo. Em janeiro, a cidade começa a andar, devagar, mas já em ritmo de horário comercial. Voltando também das minhas férias, fui dar uma olhada no Guia da Folha. A edição da primeira semana de janeiro é finíssima. Mesmo com as propagandas e um caderno especial de verão, são 60 páginas.

Para o teatro, uma só. A página 34. Cinema, é claro, ocupa grande parte do caderno (20 páginas), junto com restaurantes, guloseimas e bares (sim, são 3 categorias diferentes que, ao todo, levam 11 páginas do caderno).

Bem, meu primeiro pensamento foi que isso tinha uma resposta óbvia. Afinal, o teatro é a única arte que precisa que as pessoas estejam lá, ao vivo, atuando, para acontecer. Quer dizer, posso ver uma exposição ou ouvir uma música sem estar fisicamente no mesmo local que o artista que produziu aquela obra, a não ser que estejamos falando de uma performance ou de um show, claro. No caso do cinema, em comparação ao teatro, é ainda mais evidente: nunca vi ao vivo a maioria dos atores hollywoodianos que estão na telona.

Acabei me rendendo e resolvi, nessa primeira coluna do ano, falar um pouco de cinema também. É que, nestas férias, fui ver “Avatar”. Acho que todo mundo já ouviu falar desse filme de ficção, que tem uma história muito parecida com a de Pocahontas. O exército vai até um outro planeta (ou, mais especificamente, até a lua de outro planeta) para que uma empresa explore um minério que só há lá. Nessa equipe do exército, há uma equipe de cientistas que estuda a cultura dos Na’vi, os nativos de Pandora. Por um acaso um cientista morre. Seu irmão gêmeo assume seu lugar, por ser geneticamente compatível com seu Avatar. A questão é: ele é um fuzileiro e passa a dar informações preciosas sobre os Na’vi para o exército. Claro, ele se envolve com a cultura natureba (no bom sentindo) dos Na’vi e também com Neytiri, a filha do chefe. Ele acaba se tornando um deles e escolhendo lutar do lado deles, quando os humanos partem para a ofensiva bélica.

Jake Sully (humano e avatar).

Jake Sully (humano e avatar).

Se vocês ainda não viram o filme, não se preocupem; o roteiro é o menos importante. O interessante mesmo são os efeitos especiais. Quando vemos o mundo de Pandora, entramos no mundo mágico do cinema computadorizado. Mas esse filme não foi feito como as animações da Pixar ou da Disney. Na verdade, o diretor nem mesmo o considera uma animação. É que o filme foi feito, primeiro, normalmente. Quer dizer, como manda o figurino: os atores atuavam e a câmera os registrava. Com a diferença de que eles estavam com uma roupa cheia de pontos (havia pontos também no rosto deles) para que isso fosse capturado com detalhes pelo computador. Os cinéfilos devem se lembrar dessa nova tecnologia que está sendo desenvolvida desde Gollun (personagem do Senhor dos Anéis).

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2010: I Bienal Internacional de Arte de Rua (BIAR)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Por Yá!

Yá!

O amor a street art regido por vênus.

Um ótimo ano para todos, começo minha primeira coluna, que é  mensal, falando do grande evento que acontecerá neste ano e que não poderia ser em outro se não no ano regido pelo planeta Vênus, o planeta do amor. Como boa libriana e amante da arte urbana trago informações frescas sobre o evento e que as boas vibrações do amor espantem todos os venenos e influenciem os artistas de rua do mundo inteiro que tem essa missão. A BIAR, assim como a miséria (“miséria, miséria em qq canto…”) e as periferias (“…periferia é periferia em qq lugar…”) é  internacional pessoas…

O evento consiste em 50 artistas convidados para expor no prédio da Bienal (ainda está para ser confirmado se paralelo a Bienal tradicional por agosto e setembro ou mais para o final do ano, novembro e dezembro) e eventos paralelos, com outros artistas, que começam agora em março com a pintura do túnel da Paulista, no segundo semestre do Minhocão.

Exposições, workshops, palestras em espaços culturais como MUBE, MAC, Espaço ae iou durante o ano todo. Roteiros de Arte de Rua pela cidade, como o do projeto Soul Sampa, estarão acontecendo para atender os turistas que vem conhecer a nossa arte de rua que já é referência lá fora mostrando o graffiti em sua essência, seu contexto original.

Fiquem atentos os que tem projetos de arte de rua verdadeiros e de qualidade, por gentileza, pois será aberto edital para eles fazerem parte da BIAR. (mais…)

Você que faz a sua cidade!?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Por Alexandre Osser / Culturaria

AlexandreNão faço a menor ideia do porque viemos parar aqui no tal do Planeta Terra; quem sabe um dia eu resolva entender melhor e consiga dizer algo. O que sei é que estamos aqui, vivendo e escolhendo.

Há poucos dias, completamente parado e curtindo o trânsito das onze da noite de terça feira na Avenida Paulista, fiz a seguinte indagação, em um tom alto, aos meus colegas de trânsito.

“São onze da noite de terça feira, estamos cruzando a Avenida Paulista e tudo está completamente parado. Eu só quero chegar logo ao churrasco. Todos aqui têm churrascos pra ir? VÃO PARA SUAS CASAS. Deixem o trânsito livre para aqueles que têm que ir a churrascos.”

Veio o silêncio, ninguém me respondeu. Abri o vidro do carro para tomar um ar e escutar as buzinas soarem.

Não adiantava reclamar, havia optado por tal situação, aquela era “minha cidade”, por mais que eu não esperasse tal momento de trânsito, optei por passar por ela, meu churrasco seria muito bom. Existiam outras opções que poderia ter escolhido, mas preferi aquela.

Por mais que não pareça, minha indagação foi um momento tranquilo e relaxado; minha relação com a cidade está mudando. Coloquei o cd da Elza Soares e ao som da música Boato, curti o momento aguardando o transito fluir, sem ressentimentos. (mais…)

Para imaginar uma história, apague as luzes.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Por Júlia Novaes

Foto Júlia Novaes (Foto: Daniela Luppi)O Club Noir, com um nome desses e uma peça com esse título, não deixa dúvidas que trabalha diretamente e sempre com a escuridão (e, por conseqüência, com a luz).

Para quem foi despreparado ao Sesc Pompéia, não adiantou ler as sinopses de divulgação para tentar entender a peça. Isso porque o texto de Gregory Motton já é um texto difícil e completamente entrecortado, sem linearidade de tempo. E a montagem do diretor da companhia de teatro Club Noir, Roberto Alvim, picotou ainda mais o texto deixando pouco da história do marinheiro irlandês Tom Doheny e muito da reflexão lírica do dramaturgo.

É preciso entrar no teatro com outros olhos. Ao sentar-se no galpão do Sesc a vista começa, aos poucos a se acostumar com a escuridão e logo, tudo o que a delicada luz pontua no palco salta aos olhos. O texto e a voz, principal ponto do estudo do Club Noir é trabalhado na peça de uma forma muito específica: os três atores, ao invés de dividirem entre si os personagens, transitam entre eles: às vezes, sozinho no palco, o mesmo ator faz um diálogo todo.

É como se não houvesse diferença entre diálogo e monólogo. E, como em cena, quase não há movimentação, as vozes dos atores são trabalhadas como música e, elas sim, se movimentam: do grave para o agudo, do lento para o rápido, do sólido para o airado. E é nessa brincadeira que está a beleza da peça.

Sem necessidade de entender a história racionalmente, é preciso sentir, experiênciar, ouvir. Isto porque toda a dificuldade das elipses de tempo, dos recortes da história e da multiplicidade dos personagens é facilitada pela visualidade. O cenário tem apenas dois bancos e alguns símbolos: a árvore, a maçã, a cobra e o porco. São símbolos simples, até clichês, presentes do imaginário de todos, mas utilizados de forma muito plástica que acrescenta um véu de familiaridade a aridez da peça. (mais…)

“Tô tentando, segurando a parede do mangue do meu quintal: Manguetown”

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Por Yá!

Retomando o conceito trazido pelo manguebit pernambucano nos 90 e trazendo para o contexto paulista…

Yá e Pan no Uglystudio!A maioria das pessoas que vem a Vila Madalena e não mergulha no bairro acaba não conhecendo uma Vila Madalena chamada “Mangue”. Agora com as enormes e padronizadas cervejarias que chegam com esse processo de descaracterização da região, que acabam sendo uma barreira elitista, uma redoma de vidro, fica até mais difícil.

Dentro do bairro mais artístico de São Paulo com toda sua arquitetura cara, existe uma comunidade pequena nos arredores das ruas Fidalga e Fradique Coutinho que se diferenciam culturalmente. Entre casas mais do que simples, que geralmente são divididas em três ou quatro no mesmo quintal, rodas de samba na calçada, Calipso no talo e famílias de origem negra e nordestina que resistem ao alto custo de vida do bairro. Pessoas com nível de escolaridade baixo, espaço físico domiciliar restrito em aglomerados de “puxadinhos” e que sobrevivem de subempregos em plena Vila Madalena entre um dos aluguéis mais caros da cidade.

Levando essas circunstâncias que se mantêm a gerações em consideração, por presenciar isso desde os meus 7 anos e por perceber o poder da linguagem do grafite/street art me interessei bastante e me juntei, como curadora, a convite do artista Gustavo Freibert, ao projeto Memórias do Mangue.  A ideia é retratar, com o intuito de resgatar a identidade e a autoestima, histórias de alguns moradores em grafites nos muros da localidade, e o que é mais legal com a ajuda dos jovens moradores. Seremos “agentes multiplicadores” por um dia, o que será uma semente somada aos registros que ficaram por um bom tempo. (mais…)

De Cornélio Pires a Kiko Dinucci: a vocação cronística da música de São Paulo

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

por Rafael Galante

Rafael Galante

Rafael Galante

Empolgado com o novo disco do compositor Kiko Dinucci, que na minha humilde opinião, desponta como o grande nome da nova geração da música paulistana, resolvi escrever essa primeira coluna pensando nas relações entre o passado e o presente da crônica na música da paulicéia (como não poderia deixar de ser, já que se trata de um texto de um músico-historidor. Já peço desculpas aos leitores vanguardistas, mas o passado é a minha mania…).

Gostaria de ressalvar, porém, para que não fujam os ávidos por modernidades, que este texto dedica-se fundamentalmente ao entendimento do contemporâneo, do atual, só que pra isso gostaria de reavivar a memória musical da cidade, tantas vezes relegada ao esquecimento. Acredito assim, estar justamente me alinhando à geração do presente, que não abre mão de manter um pé no passado e outro no futuro.

Agora, deixando de lado os introdutórios para partir para os finalmentes… Convém falar de Cornélio Pires, o homenageado desse texto. Escolhi falar de Cornélio por acreditar que este autor não recebeu e não recebe até hoje todos os louros que lhe são devidos. Nascido na emblemática cidade de Tietê (que compõe com Piracicaba e Capivari o coração da cultura caipira), em 1884, o autor foi sem dúvida um homem muito à frente de seu tempo.

Ele é considerado o “inventor” da música sertaneja, porque foi sem dúvida o primeiro a divulgar nos meios de comunicação de massa da capital paulista a cultura musical do interior do estado.

Desde 1914 o autor circulava fazendo apresentações, até que em 1929 decidiu buscar as gravadoras da capital para gravar um disco de música caipira. As gravadoras cerraram as portas para um gênero que acreditavam que jamais faria sucesso no mundo urbano de São Paulo. Cornélio, então, toma uma decisão inédita pra época, decide gravar seus próprios discos, tornando-se o primeiro músico de selo independente no Brasil. Sua iniciativa resulta num enorme sucesso: a  venda de mais de cinco mil discos de 78 rpm ( o que significa um ótimo faturamento pra época, ainda mais se tratando de um gênero até então desconhecido em disco). Cornélio passa a ser assediado pelas grandes gravadoras e numa atitude profética se mantém como músico independente até o fim da carreira. (mais…)

A gente precisa ver mais a cidade

terça-feira, 24 de novembro de 2009

por Pedro Pracchia

 

Pedro Pacchia

Está nos muros cinzas por aí: “a gente precisa ver mais a cidade”.

São Paulo é uma metrópole caótica. São 800 novos carros em circulação por dia, um transporte público que nos horários de pico é equiparável a latas de sardinha em combustão e uma desigualdade sociocultural que beira o impossível. Um frenesi de milhões de pessoas se movimenta cotidianamente e não deixa a cidade dormir. Nem parar de trabalhar.

Nas paredes da cidade, alguns ativistas da qualidade de vida alertam: “Você passa mais tempo no trânsito do que com a sua família”. A frase do grafiteiro Mundano salienta a questão dessa primeira coluna: Por que não deixar o carro em casa e ir conhecer a cidade a pé?

Descobrir sebos, brechós, mensagem que pedem “mais amor, por favor” e enfatizam que “o amor é importante, porra!”. São Paulo é uma galeria de arte a céu aberto. Artistas que pintam pelos alicerces do minhocão e prédios abandonados expõem seus trabalhos em galerias pelo mundo.

Recentemente o americano Jay Milder, considerado um dos seis maiores expressionistas norte-americanos vivos e como um dos disseminadores da action painting, grafitou junto com o paulistano Kobra um mural na Av. Rebouças sobre a Arca de Noé, tema recorrente em seu trabalho. Uma pintura de Milder chega a valer 500 mil dólares. Um andar a pé pela calçada, parar e dialogar com a arte que colore o cinza da cidade não custa nada.

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Teatro na contramão do trânsito de São Paulo

terça-feira, 17 de novembro de 2009

por Júlia Novaes

 

Foto Júlia Novaes (Foto: Daniela Luppi)

Depois de uma semana de caos, com falta de energia, falta de água, calor, chuvas e claro, como de costume, um trânsito horrível na cidade de São Paulo, eu resolvi escrever sobre uma luz no fim desse túnel.

 “Cordel do Amor Sem Fim” é um espetáculo de teatro que tem suas últimas apresentações dia 18 e 19 de novembro, quarta e quinta, às 21hs. O local? Um ônibus urbano com saída no TUSP.

 A companhia que criou esse projeto, assim como acontece frequentemente em São Paulo, se juntou por afinidade de gostos. Os membros da Trupe Sinhá Zózima se conheceram em um curso profissionalizante de teatro e, desde a formatura estão juntos. Parece que, na contramão desse nosso mundo de competição, o grupo faz o projeto ficar mais forte. Eles dividem tudo, desde a criação do espetáculo à pesquisa geral da Trupe, sempre em cima das ideias de regionalismo, cotidiano e a universalidade dos sentimentos e emoções humanas. Além da concepção, da escolha do espetáculo e do material humano e profissional que os integrantes trazem para a Trupe, eles também dividem a produção: da parte administrativa à financeira. Hoje, depois de dois anos juntos, os seis integrantes da Trupe já conhecem a facilidade e as preferências que cada artista tem no trabalho mais burocrático da produção, mas todos eles já fizeram um pouco de tudo. Assim, todos os artistas sabem tudo o que é preciso para que o espetáculo saia das ideias e entre no mundo real.

Essa sintonia surgiu da mesma vontade: a de explorar o contato com o público e com o espaço. Para isso, a Trupe começou em bares noturnos, passando para o ônibus urbano e até mesmo supermercados. Mas essas intervenções fizeram os integrantes da Trupe decidirem que o que eles procuravam era fazer um espetáculo em movimento e, por isso, a escolha final pelo ônibus urbano. Claro que essa ideia trouxe diversas dificuldades. Uma delas, para dar um exemplo, é a dificuldade de classificar a peça para editais e festivais por ela não se caracterizar nem como teatro de rua nem como “teatro no teatro”. É inacreditável que uma ideia tão boa não tenha espaço simplesmente por não se enquadrar nesse tipo de classificação. (mais…)