456 anos e o primeiro texto

Por Pedro Henrique Araújo

Pedro Henrique


O que seria melhor do que começar a escrever num site sobre a cidade no aniversário da mesma? Ok, talvez uma lasanha, uma partida ganha pelo meu time e um bom solo de bateria sejam melhores, mas não encontrei outra forma de começar este texto. Alguém aí teria mais um clichê para o segundo parágrafo?

Antes de qualquer linha sobre música -  tema que abordarei aqui – gostaria de falar sobre mim. Isso mesmo, da mesma forma que fazemos no terapeuta, mas prometo não entrar nos conflitos freudianos. Sou Pedro Henrique Araújo, repórter do site Placar, apaixonado por futebol e novo colunista de música do Culturaria. Agora você, prezado leitor, se pergunta: mas o cara não é jornalista esportivo? Assim como não somos alegres o tempo inteiro (já diria Wander Wildner), não sou futebol 24 horas por dia. Problema resolvido?

Então, vamos ao que interessa.

Aniversário da cidade de São Paulo com programação musical bem fraca. Shows de segundo escalão nos palcos principais e falta de empenho na divulgação, qual foi a saída mais fácil e arborizada? Conferir as apresentações do Auditório Ibirapuera.

No sábado fui ver a banda brasilense Móveis Coloniais de Acaju, uma das preciosidades pop nacional. Devo confessar também toda a minha parcialidade com o grupo, porque os acompanho desde os primeiros shows em São Paulo e gosto do som que fazem, mas isso não é motivo para eu deixar de afirmar categoricamente que vi um dos melhores shows do noneto de Brasília. Com energia ímpar, fizeram o registro de seu primeiro DVD, que será lançado em breve.

A composição da banda é impressionante. Além dos básicos, baixo, bateria, guitarra, teclado e vocal, aparece também um trombone de vara, um saxofone tenor, um barítono e uma flauta transversal. O som, definido por eles mesmos, é uma feijoada búlgara, mas tem azeite de dendê e muito swing.

O único problema – que pode nem ser tão grave assim – é o público que a banda vem abocanhando. A plateia está cada vez mais jovem e preocupada com os sapatos desamarrados do vocalista no lugar dos solos de sax. Um problemão para quem quer prestar atenção na execução das canções. Ok, esse comentário pode ser só birra de uma pessoa com a alma “velha” e, se quiserem, podem ignorá-lo.

O destaque do show, como na maioria das vezes, foi a famosa roda montada na música Copacabana, que dominou todo o auditório. Se você não tem ideia do que estou falando dá uma olhadinha nesse vídeo e entenda o caso.

No dia seguinte o Auditório Ibirapuera parecia outro lugar. Em vez de jovens coloridos e recém-saídos da puberdade, havia homens tatuados e com barbas por fazer, além de meninas descoladas. Não encarem isso como preconceito para nenhum dos dois lados, mas num dia parecia um show teen, no outro quase uma palestra. E para não aparentar mais preconceituoso (novamente) fiquei à vontade nas duas situações.

No palco, cinco homens, com exceção do baterista Clayton Martin, vindos do ensolarado estado do Ceará, ostentavam um bronzeado de escritório. Em silêncio se posicionaram e começaram a viagem. É verdade, só faltou o locutor do evento mandar a gente colocar o cinto e se preparar para a decolagem.

O som que ecoava das caixas era pop, reggae, retrô, brega e, principalmente, rock’n roll. Meu Deus, como o Cidadão Instigado é bom ao vivo, como a guitarra do Fernando Catatau grita, como o teclado marca a música e como tem groove.

Ok, já deu para perceber que novamente estou falando de uma banda que tenho apreço, mas não tem como não exaltar as qualidades de um grupo que se sustenta com um som original e revigorante, e faz isso sem tentar seduzir a plateia. Em terra de Cine e Fresno, quem vê um show do Cidadão é rei. Se não for rei é, pelo menos, um pouco esperto.

Sem muita firula eles tocaram, voltaram para o bis e saíram. Sóbrios. Muito diferente do dia anterior quando até umas lágrimas rolaram. Novamente, não quero aplicar dois pesos e duas medidas aqui. Fiquei igualmente satisfeito em ambos os dias mesmo sabendo da diferença abissal nas propostas das bandas.

Posso dizer que muitos, assim como eu, souberam absorver o que há de melhor nos mundos de Móveis Coloniais de Acaju e Cidadão Instigado. Em direções opostas na música pop, os dois grupos cumprem bem os seus papéis. Originalidade, perspicácia e talento ecoaram nos alto-falantes do Auditório Ibirapuera e fizeram o meu feriado mais produtivo.

Mesmo com a chuva que fez morada na cidade, posso dizer que saí do aniversário da cidade com o sentimento de dever cumprido e esperando por mais shows assim não só no Ibirapuera, mas no SESC, nas casas do baixo Augusta e em toda cidade.

Bom, esse foi o primeiro texto (de muitos, espero). Agradeço a preferência e, assim como no saquinho da padaria, gostaria de dizer. VOLTE SEMPRE!

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7 comentários para “456 anos e o primeiro texto”

  1. Peu disse:

    Voltaremos, pode ter certeza

  2. penas disse:

    Em nome do povo do Auditório agradeço a visita e o prestigio. Sim, voltem sempre!

  3. Laís disse:

    Eu vi o show do Móveis, foi muito legal. Aquela roda tamanho família, aquela energia, aquele astral. Foi demais

  4. Ana disse:

    O que seria do aniversário sem a chuva?!
    Móveis coloniais são bem interessantes, faça chuva ou tempestade, pq garoa, nessa cidade, virou lenda!

  5. Liana disse:

    Muito bom seu blog Pedro.  Sobre ser jornalista de esportes e agora estar aqui no Culturaria, eu arriscaria dizer que tu és um jornalista hiperativo. kkkk Eu tb sou assim e sinto prazer em ser ocupada, em estar sempe com a mente produzindo ou lendo. Sou metida a fotografa, marqueteira, empreendedora, blogueira… kkk Muito legal ver jornalistas como você que escrevem coisas que nos acrescenta. Voltarei sempre sim, porquê, assim como o conteúdo do saquinho da padaria, é seu blog. Gostoso e dá vontade de degustar mais vezes.
    Beijão!

  6. João disse:

    Vi o show do Cidadão Instigado e achei impagável. Bom texto

  7. Marcos Lauro disse:

    “Massa”, como diria Catatau.

    Belos espetáculos… o Auditório Ibirapuera está se firmando como uma das melhores casas de show de São Paulo, não só pela suas qualidades técnicas, mas pelo cuidado de sua curadoria. Muito bom.