Por Luiza Delamare /Culturaria
“Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma”. As palavras de Augusto Boal, diretor de teatro e dramaturgo, traduzem o espírito e os ideais da vanguarda da dramaturgia brasileira que fizeram com que o Teatro de Arena nascesse. Em 1953 surgia em São Paulo, mais que um grupo ou uma companhia, uma nova concepção de teatro.

Fachada do Teatro de Arena
Ao tentar refletir a sociedade da época e trazer para o palco a linguagem e o cotidiano das pessoas da classe média e das camadas sociais com menor poder aquisitivo, o Teatro de Arena, inaugurado em 1955, imprimiu no espaço da rua Theodoro Baiman a ideia de dar voz à população: sua configuração espacial já colocava os espectadores como parte do cenário e até mesmo como parte das peças, as cenas se prolongavam até as arquibancadas e exploravam a busca por uma nova proposta estética que se realizava nas diversas possibilidades de encenação daquele teatro.
“Era preciso apresentar produções de baixo custo em contraposição ao tipo de teatro que se via praticado pelo TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), que apresentava um repertório internacional na maior parte, com produções sofisticadas. Por isso, o Teatro de Arena surge não só com uma nova proposta estética, mas também como uma nova proposta política”, diz Mauro Martorelli, diretor técnico do Teatro de Arena.
Além de Gianfrancesco Guarnieri, outro nome importante no processo de construção da identidade do Teatro de Arena foi Plínio Marcos, que dizia que o “teatro só faz sentido quando é uma tribuna livre onde se pode discutir até as últimas consequências os problemas dos homens”. Plínio Marcos despejou em palavras a vida dos excluídos e escancarou temas como homossexualismo, violência, prostituição em uma linguagem impactante que era constantemente encenada.
Com o sucesso da peça Eles Não Usam Black-Tie surgiu o movimento Seminários de Dramaturgia, que tinha o objetivo revelar e expor a produção de novos autores brasileiros. Augusto Boal, que tinha acabado de chegar dos Estados Unidos, foi o diretor e dramaturgo central nesse processo. A partir daí, além de buscar uma dramaturgia nacional, passou a incentivar a nacionalização dos clássicos.

Foto da montagem original de Chapetuba F. C. dirigida por Augusto Boal em 1959
A forte repressão da Ditadura Militar instaurada a partir de 1964, que culmina com o Ato Institucional nº 5, o AI-5, impedem a continuidade dessas experiências cênicas.
Durante a ditadura, a realidade de suas palavras era forte demais para não ser censurada pelos militares. A trajetória do Arena é interrompida pela Ditadura em 1972.
Hoje o Teatro de Arena recebe o nome de Teatro Funarte de Arena Eugênio Kusnet e foi resgatado para se consolidar como um espaço permanentemente aberto à experimentação teatral. É o teatro que hoje se preocupa em fazer uma releitura e uma revisão crítica da dramaturgia brasileira e abordar temas como coletividade, preocupações ambientais e projetos urbanísticos.
Normalmente é cedido para grupos ou companhias que trabalham com o estudo e a pesquisa da linguagem cênica, além de sediar debates e encontros de grupos teatrais. O Teatro de Arena está capacitado para receber 98 espectadores, e é ocupado semestralmente por um grupo teatral que realiza espetáculos a preços populares. O Teatro de Arena, marco da história das artes cênicas em São Paulo, está aberto para quem quiser conhecer um pouco mais da cultura que faz parte da cidade. O Arena ainda representa um mergulho nas ideias de vanguarda de uma época que se refletem até hoje no modo de fazer e pensar a arte que nos cerca.
