Casa Tomada: reflexão e arte

Por Luisa Marques / Culturaria

Um galeria de arte escondida em meio às árvores do delicioso bairro da Aclimação, zona sul de São Paulo, surpreende logo na fachada. Uma casa bonita e aconchegante passou a servir de ponto de encontro de jovens artistas desde junho deste ano.

Casa da Tomada / Foto: Luisa Marques

Quarto utilizado por Adelita Ahmad na Casa Tomada.

O projeto Ateliê Aberto vem com uma nova proposta. Unir artistas de diferentes áreas para conviverem na Casa Tomada durante mais ou menos 1 mês. Depois desse tempo, os artistas devem expor seus trabalhos na Vitrina do Ateliê, além de terem de registrar todo o processo de produção.

Para o ano que vem, o Ateliê Aberto virá acompanhado do projeto Ateliê Teórico, que tem como objetivo trazer intelectuais, pesquisadores e críticos de arte para trazerem os debates mais atuais sobre a arte contemporânea. Para organizar tudo isso, bastou o espaço, as amizades e parcerias acumuladas, e a idéia.

A artista e pesquisadora, Tainá Azeredo, e a atriz e cineasta, Thereza Farkas, são as criadoras dos projetos desenvolvidos na galeria.  “O Ateliê Aberto é um projeto piloto que contou com parcerias para ser realizado”, disse Thereza. A Papelaria Universitária ofereceu os materiais, e foram feitas parcerias com membros de outras galerias, como a Teto Projects, de Amsterdã e com os artistas que deram workshops. “Agora o projeto será formatado e buscaremos patrocinadores”, complementa Thereza.

Completando a programação de modo harmonioso, também estão programadas a realização de  workshops com profissionais das artes, e eventos diferenciados. Ainda neste ano ocorreram workshops com o compositor Arrigo Barnabé, a artista plástica Erika Verzutti, o diretor de fotografia José Roberto Eliézer, o poeta, performer e pesquisador Lucio Agra, a figurinista Marjorie Gueller, o músico, pesquisador e cineasta Sérgio Basbaum.   

Como dá pra perceber na diversidade criativa dos profissionais, a união entre os projetos Ateliê Teórico e Ateliê Aberto é o carro chefe. As meninas definem a Casa Tomada como um espaço de investigação artística. Logo não é uma galeria comum, lá também se produz conhecimento. A necessidade de acompanhar e documentar o processo criativo dos artistas residentes também tem o objetivo de buscar os sentidos existentes em cada artista e em cada obra. A interação das pessoas que estão na casa é mais um mecanismo de evidenciar todos os processos que circundam o fazer artístico.

Um interlocutor selecionado acompanha os artista durante todo o processo, auxiliando no desenvolvimento do projeto individual e em grupo, se for o caso. O primeiro convidado foi Sérgio Basbaum, músico, pesquisador e cineasta. O site da Casa Tomada, criou um blog individual para cada artista, como mais um suporte para registrar a experiência na casa, juntamente com os cadernos do artista, que cada um deveria produzir também.

Casa Tomada / Foto: Luisa Marques

No dia 10 de dezembro aconteceu na Casa Tomada a celebração desses 6 meses de atividades iniciais deste ano. O grupo dos primeiros artistas que conviveram na Casa durante um mês estavam lá para contar um pouco da sua experiência nesse período.

Adelita Ahmad, atriz, artista plástica e performer. Registrou o cair das folhas no jardim, enquanto ficou sentada na cadeira de balanço durante 7 horas. Depois disso ela criou uma composição em vídeo. Bruno Baptistelli, artista plástico. Trabalha com materiais abandonados no espaço urbano. Na casa, ele tirou fotos diárias do lixo produzido, fazendo colagens posteriormente.

Deco Farkas, artista plástico e audiovisual. Fez um trabalho com animação e música. Não tinha um roteiro definido. Seu projeto foi se construindo na casa. Gui Mohallem, cineasta. Usualmente trabalho com fotos, mas resolveu emoldurar um texto, e não uma imagem.

Henrique César, artista plástico. Registrou os barulhos escondidos que a casa produzia, criando a obra “Máquina de caçar fantasmas”.  Maíra Mesquita, cineasta, diretora de arte, cenógrafa e figurinista. Mari Poppovic, formada em moda e desenhista. Fez desenhos estilizados dos outros participantes da casa, criando uma ambientação para os retratos e colocando neles alguns acessórios.

Esses artistas conviveram durante 1 mês na Casa, produzindo cada um uma obra a ser apresentada ao final. Mas a regra do jogo é mais livre. Se a convivência resultar um ponto comum entre um ou mais artistas, eles podem também criar algo em conjunto. Nesse primeiro grupo os trabalhos saíram individuais, mostrando que a convivência nem sempre facilita o trabalho criativo pessoal. Adelita já manifestou sua maior dificuldade: “1 mês é muito pouco para estudar o que se vai fazer, produzir, realizar. É um desafio. Mas, o prazo é um estímulo”, confessou.

Guilherme e Maíra chegaram até a dormir na casa. A necessidade de terminar no prazo também é pessoal, assim como todo o processo de criação. Guilherme e Adelita também gostaram da interação que o blog do site proporcionou. “Tem vezes que ninguém comenta os posts, de repente você fala algo e ele vira pop”, Guilherme comentou. Ele e Adelita tornaram pública uma conversa que tiveram sobre solidão no blog. Para eles o blog foi uma como uma “extensão da casa”, disse o Gui, porque para ele, o “insight muitas vezes acontecia longe da casa”.

Deko já tem um estilo de trabalho mais solitário. O prazo de um mês para ele também gerou aquela ansiedade natural do artista ter de conciliar a leveza de seu processo intuitivo e criativo com a dureza do prazo e do passar do tempo. Mas no vídeo final que Deko criou na casa todos participaram de alguma forma. “Se a casa estivesse vazia, não teria feito algo tão diferente”.

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