De Cornélio Pires a Kiko Dinucci: a vocação cronística da música de São Paulo

por Rafael Galante

Rafael Galante

Rafael Galante

Empolgado com o novo disco do compositor Kiko Dinucci, que na minha humilde opinião, desponta como o grande nome da nova geração da música paulistana, resolvi escrever essa primeira coluna pensando nas relações entre o passado e o presente da crônica na música da paulicéia (como não poderia deixar de ser, já que se trata de um texto de um músico-historidor. Já peço desculpas aos leitores vanguardistas, mas o passado é a minha mania…).

Gostaria de ressalvar, porém, para que não fujam os ávidos por modernidades, que este texto dedica-se fundamentalmente ao entendimento do contemporâneo, do atual, só que pra isso gostaria de reavivar a memória musical da cidade, tantas vezes relegada ao esquecimento. Acredito assim, estar justamente me alinhando à geração do presente, que não abre mão de manter um pé no passado e outro no futuro.

Agora, deixando de lado os introdutórios para partir para os finalmentes… Convém falar de Cornélio Pires, o homenageado desse texto. Escolhi falar de Cornélio por acreditar que este autor não recebeu e não recebe até hoje todos os louros que lhe são devidos. Nascido na emblemática cidade de Tietê (que compõe com Piracicaba e Capivari o coração da cultura caipira), em 1884, o autor foi sem dúvida um homem muito à frente de seu tempo.

Ele é considerado o “inventor” da música sertaneja, porque foi sem dúvida o primeiro a divulgar nos meios de comunicação de massa da capital paulista a cultura musical do interior do estado.

Desde 1914 o autor circulava fazendo apresentações, até que em 1929 decidiu buscar as gravadoras da capital para gravar um disco de música caipira. As gravadoras cerraram as portas para um gênero que acreditavam que jamais faria sucesso no mundo urbano de São Paulo. Cornélio, então, toma uma decisão inédita pra época, decide gravar seus próprios discos, tornando-se o primeiro músico de selo independente no Brasil. Sua iniciativa resulta num enorme sucesso: a  venda de mais de cinco mil discos de 78 rpm ( o que significa um ótimo faturamento pra época, ainda mais se tratando de um gênero até então desconhecido em disco). Cornélio passa a ser assediado pelas grandes gravadoras e numa atitude profética se mantém como músico independente até o fim da carreira.

Porém, o que traz Cornélio a esta coluna não é exatamente a sua relação com a música caipira, e sim seu trabalho como cronista. Cornélio é sem dúvida um dos primeiros músicos a tornar a crônica um eixo temático de seu fazer musical, uma rápida olhada em títulos como “anedotas norte-americanas e entre italiano e alemão”, “agitação política em São Paulo e cavando votos”, “a moda da revolução”, “o bonde camarão”, “o Zepelim” e “o Submarino”, deixa claro isso. Entendo que a diferença do tipo de música que aqui chamamos de crônica urbana para as outras seja justamente o fato dela surgir a partir dos conflitos provocados pela modernidade, suas contradições, angústias, traumas, a violência do progresso, ainda que o eu-lírico não seja necessariamente urbano, como no caso das composições de Cornélio. 

É importante frisar que os teatros musicados (existentes desde o século XIX), também conhecidos como teatros de revista, foram fundamentais para a criação de um espaço de opinião pública condizente com uma crônica do cotidiano condimentada com alta carga de ironia e humor. Todos os autores posteriores foram também tributários, de alguma maneira, dessa tradição.

É impressionante pensar como a música de São Paulo é marcada pela crônica da modernidade, isso nos diferencia muito da música do Rio de Janeiro, ainda que essas questões também tenham tido eco por lá. Basta pensar, por exemplo, no nosso símbolo maior: João Rubinato, mais conhecido pelo pseudônimo Adoniran Barbosa. Quase todo o cancioneiro de Adoniran é cortado transversalmente por uma crônica da cidade e do progresso. O humor e a ironia sublimados pela sagacidade de Adoniran já eram a tônica de boa parte da obra de Cornélio Pires, assim como foi de todos os sucessores discípulos de Adoniran, como Paulo Vanzolini, Carlinhos Vergueiro, Eduardo Gudin e, mais recentemente, Itamar Assunção e as músicas do Premeditando o Breque, com “São Paulo São Paulo” e o irresistivelmente irônico verso “É sempre lindo andar na cidade de São Paulo”.

Quando Kiko Dinucci, constrói seu cancioneiro a partir de um vasto repertório aprendido das culturas tradicionais de São Paulo e o transforma em belas crônicas para nos dar mostras de suas angústias que surgem na megalópole paulistana, ele não está apenas demonstrando a criatividade da nova geração e sua capacidade de ler os dilemas contemporâneos, ele está se conectando diretamente a uma vastíssima tradição crítica formada por Cornélio Pires, Adoniran Barbosa e inúmeros outros artistas cronistas que não tiveram seus nomes aqui citados, mas que contribuíram decisivamente na formatação desse fazer musical que é a cara de São Paulo.

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5 comentários para “De Cornélio Pires a Kiko Dinucci: a vocação cronística da música de São Paulo”

  1. william disse:

    PARABENS PELO SITE…
    Na musica country VIRGINIA DE MAURO a LULLY de BETO CARRERO vem fazendo o maior sucesso com seu CD MUNDO ENCANTADO em homenagem ao Parque Temático em PENHA/SC. Asssistam no YOUTUBE sessão TRAPINHASTUBE
    é o sonho eterno de BETO CARRERO e a mão de DEUS.

  2. Gabriel disse:

    Muito bom.
    Não acho que sua opinião deveria ser humilde não…

  3. Luiza disse:

    Parabéns pelo texto! Descobrir São Paulo por meio da música é uma delícia!

  4. Alexandre disse:

    Gostei bastante, parabéns pela coluna